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Especialistas apontam saúde mental negligenciada por trás de suicídios entre policiais

Especialistas afirmam que o aumento de casos está ligado à combinação entre exposição permanente à violência, sobrecarga, assédio e falta de investimentos

Sílvia Pires – O crescimento dos suicídios entre policiais de Minas Gerais, que tiveram alta de 40% em um ano, acende o alerta para um problema que, durante anos, permaneceu invisível dentro das corporações. Para especialistas ouvidos pela reportagem de O TEMPO, o fenômeno não pode ser explicado apenas por questões individuais, mas por uma combinação de fatores relacionados à própria atividade policial e às condições de trabalho oferecidas aos agentes.

Advogado criminalista e oficial  reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), Jorge Tassi afirma que o risco mais letal para esses profissionais, muitas vezes, não está nas ruas, mas no desgaste psicológico provocado pela profissão. “A saúde mental está sempre no mesmo espectro dos riscos operacionais da atividade policial. O profissional vive submetido a uma estrutura hierárquica rígida, trabalha diariamente com violência e precisa tomar decisões extremas. Isso produz um desgaste emocional muito alto”, afirma.

De fato, os dados do  20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostram que os policiais civis e militares de Minas Gerais morreram mais por suicídio do que em confrontos durante o serviço ou na folga em 2025. Conforme o relatório, 14 agentes de segurança cometeram suicídio no estado ao longo do ano passado, enquanto quatro morreram em confrontos relacionados à atividade policial.

Para Tassi, o fato de o policial portar uma arma de fogo diariamente agrava ainda mais esse cenário. Além de representar um instrumento de trabalho, o armamento amplia a responsabilidade e, ao mesmo tempo, facilita que um momento de crise tenha consequências irreversíveis. “A arma é uma ferramenta de poder, mas também um instrumento que pode se voltar contra o próprio profissional. Quando ele passa por um impulso de poucos segundos, o meio para concretizar o suicídio já está ali, à disposição”, explica.

Tassi ressalta que a convivência constante com situações de morte e violência também deixa marcas profundas, ainda pouco discutidas dentro das instituições. Para ele, mesmo quando age dentro da lei, o policial precisa lidar pelo resto da vida com o peso de ter tirado a vida de outra pessoa, por exemplo. “Todo mundo olha para o policial como alguém que apenas cumpriu o dever. Mas ele é quem carrega o peso daquela decisão. É ele quem convive com as consequências emocionais de apertar o gatilho”, diz o pesquisador em segurança pública.

O especialista chama atenção ainda para outra realidade pouco debatida: a dos policiais penais. Segundo ele, esses profissionais permanecem anos submetidos ao mesmo ambiente hostil dos presídios, compartilhando diariamente a tensão, a violência e a degradação das unidades prisionais. “Não faz sentido manter um presídio em condições indignas e imaginar que o policial que trabalha ali vai sair saudável mentalmente”, afirma.

Na avaliação de Tassi, o enfrentamento do problema exige políticas permanentes de acompanhamento psicológico, avaliações periódicas da aptidão para o porte de arma, melhores condições de trabalho e remuneração adequada, reduzindo a necessidade de jornadas extras e outras fontes de estresse.

“Nós não cuidamos da vida do policial. Ele termina o plantão e muitas vezes precisa fazer outro trabalho para complementar a renda. Todo esse estresse da vida pessoal entra na atividade policial e vice-versa. Essa mistura vai adoecendo o profissional”, afirma.

Condições precárias de trabalho

Para a diretora de Assuntos da Mulher do Sindicato dos Escrivães de Polícia Civil de Minas Gerais, Aline Risi, o crescimento dos suicídios é consequência de um processo de adoecimento que vem sendo alimentado por anos de precarização da segurança pública. O crescimento mais expressivo de casos de suicídio foi registrado na Polícia Civil de Minas Gerais, que passaram de um em 2024 para quatro em 2025, um aumento de 300%.

Segundo ela, o trabalho policial reúne fatores de risco que vão muito além do enfrentamento da criminalidade. Baixos salários, déficit de efetivo, estruturas precárias, jornadas sobrecarregadas e o assédio institucional criam um ambiente que favorece o sofrimento psíquico. “Tudo isso potencializa o adoecimento mental”, afirma.

Risi destaca que a pressão vivida pelos agentes não termina ao fim do expediente. Além da responsabilidade de combater o crime, muitos convivem com dificuldades financeiras e preocupações familiares. “Cada policial tem uma família para sustentar. Qualquer problema pessoal acaba sendo potencializado porque o profissional já trabalha diariamente sob um risco iminente de morte”, diz.

A sindicalista critica a falta de investimentos em pessoal e infraestrutura, apontando que muitas delegacias funcionam em imóveis reformados por prefeituras ou até por empresas privadas, enquanto o efetivo diminui ano após ano. “Não adianta entregar viaturas novas se não há policiais suficientes para trabalhar. Temos excedentes aguardando convocação, mas os concursos não avançam. Falta investimento em material humano”, afirma.

Outro ponto considerado grave por ela é o assédio moral dentro das instituições de segurança, especialmente contra mulheres. “O assédio foi institucionalizado. E existe um problema ainda mais grave: o assédio de segunda ordem. Quando o servidor denuncia, muitas vezes passa a sofrer novas perseguições justamente por ter denunciado”, afirma.

Para Risi, reconhecer que o policial também precisa de cuidado é um passo indispensável para enfrentar o problema. “Por trás da farda existe um ser humano que precisa de cuidado. A segurança pública está abandonada, e esse abandono acaba adoecendo quem dedica a vida a proteger a população”, conclui.

Fonte: O Tempo

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