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Depois dos 60, empreender virou plano A

Entre a necessidade de renda e o desejo de continuar produtivo, empreendedores 60+ reinventam trajetórias profissionais

Depois dos 60, empreender deixou de ser exceção e se tornou alternativa para permanência no mercado de trabalho, seja por necessidade, oportunidade, autonomia ou pelo desejo de continuar ativo. No Brasil, já são 4,5 milhões de negócios geridos por pessoas com mais de 60 anos, o equivalente a quase 15% dos mais de 30 milhões de negócios registrados no país.

Em Minas Gerais, o movimento também chama a atenção. Dos 3,1 milhões de negócios registrados no estado, 510,5 mil são comandados por empreendedores 60+. Desde 2012, início da série histórica, o número cresceu 65,4% em Minas e 58,5% no Brasil. Os dados são do Sebrae, em levantamento realizado no primeiro trimestre de 2026.

Para muitos desses empreendedores, o negócio já se tornou uma atividade consolidada: em Minas, 88% deles estão à frente do empreendimento há pelo menos dois anos.

Experiência que vira negócio

O crescimento desse público, no entanto, não significa que exista um único perfil de empreendedor sênior. Pelo contrário. Para o consultor do Sebrae Minas Érico Marques, há quem chegue ao empreendedorismo depois de encerrar a carreira, quem transforme uma habilidade ou hobby em fonte de renda, quem realize um sonho antigo e também quem empreenda por necessidade. “Não existe um único empreendedor sênior. Existem diferentes histórias que levam essas pessoas a empreender”, explica.

Em alguns casos, necessidade e escolha acabam se misturando. A dificuldade de encontrar uma nova colocação depois dos 60 pode fazer do empreendedorismo uma alternativa de geração ou complementação de renda. Mas, segundo o Sebrae, isso não significa que a atividade permanecerá como uma solução de emergência. “Começar por necessidade não significa continuar empreendendo apenas por esse motivo”, pontua Erico.

Para ele, a experiência acumulada ao longo da vida pode se transformar em vantagem competitiva para quem decide abrir um negócio. “A trajetória reunida depois dos 60 pode ser um grande benefício competitivo, desde que venha acompanhada de planejamento, adaptação e conhecimento de mercado”, observa.


Há três anos, Carmelita Nolasco, de 63 anos, sobrevive exclusivamente da renda da confeitaria. Crédito: Arquivo Pessoal

É justamente essa combinação entre trajetória profissional e uma nova atividade que aparece nas histórias de quem decidiu empreender depois dos 60. Há três anos, Carmelita Nolasco, de 63 anos, vive exclusivamente da renda como confeiteira. Apesar de estar na informalidade, já que não tem empresa registrada, Lilita, como é carinhosamente conhecida pelos clientes, enxerga no empreendedorismo uma forma de aumentar a renda e, atualmente, produz até 50 bolos confeitados por mês. “Amo o que faço e faço com carinho, esse é o segredo”, confidencia.

Antes de entrar no empreendedorismo, ela trabalhou de carteira assinada como secretária odontológica, doméstica e babá. Por hobby, fazia bolos nos momentos vagos. Entretanto, após o incentivo da tia do marido, começou a vender a iguaria. “Comecei há 42 anos, mas nos últimos três anos o ofício virou minha fonte de renda. 100% dos meus ganhos vêm da confeitaria. E eu adoro ser empreendedora, nasci para isso”, confidencia.

Além de trabalhar com o que gosta e por conta própria, o que a permite ter flexibilidade nos horários, Lilita garante que fatura mais como empreendedora do que quando era empregada. “A renda está maior, trabalho feliz”, garante.

Dentista por formação e sócia de uma clínica odontológica, Celeste Vieira, de 70 anos, migrou para o empreendedorismo de forma despretensiosa. Ela sempre amou fazer tapioca e desenvolveu uma receita especial que a permitia deixar a iguaria congelada para o filho. Devido ao sabor e à praticidade, a receita chamou atenção dos parentes e Celeste foi incentivada a vender o produto. “Não pensava em empreender, e hoje faço por prazer”, confessa.

O negócio deu tão certo que, agora, a Tapioca de Minas, empresa de Celeste, fornece o alimento para várias lanchonetes. Aposentada desde 2010, Celeste acumula as duas rendas. Com o dinheiro do empreendedorismo, conseguiu realizar um sonho antigo. Com o lucro, construiu três caixas de captação de chuva para famílias do Piauí, sendo que uma delas é formada por sete pessoas. “Empreendo por prazer e para ajudar outras pessoas. Tenho pressa, e queria deixar esse legado”, declarou.

E Celeste não pensa em parar tão cedo. “Enquanto tiver condições, quero continuar. Depois da aposentadoria surgiu o lado social. Depois que comecei a empreender, senti a necessidade de ajudar o sertão nordestino. Tenho o privilégio de escolher, e escolho seguir empreendendo”, diz.

A experiência acumulada ao longo da vida pode ser uma vantagem para quem empreende depois dos 60, mas não elimina os desafios de administrar um negócio. Segundo o Sebrae, acompanhar as transformações tecnológicas, separar as finanças pessoais das empresariais e entender que experiência profissional não é sinônimo de experiência em gestão estão entre os principais obstáculos desse público. 

Nem sempre é oportunidade

Apesar do crescimento de negócios geridos por pessoas 60+, o empreendedorismo na maturidade não deve ser confundido sempre com escolha. Para a pesquisadora Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), parte dos trabalhadores 60+ que atuam por conta própria está na informalidade. “Muitas vezes as pessoas estão trabalhando como vendedoras, como trabalhadores de serviços ou em alguma atividade relacionada ao comércio”, explica.

A informalidade, segundo ela, deixa o trabalhador exposto às variações do mercado. “A gente sabe que a informalidade é muito prejudicial à estabilidade do empregado, do trabalhador, porque ela é suscetível às oscilações da economia. Quando a economia vai mal, os primeiros empregos cortados são aqueles mais informais”, diz.

Esse cenário coloca uma ressalva nesse crescimento: nem todo negócio nasce de uma oportunidade de mercado, e nem todo empreendedorismo significa autonomia financeira. Para a economista Lúcia Garcia, especialista em questões do trabalho do Dieese, porém, o dado isolado não permite afirmar uma tendência. “Para empreender não é necessário só desejo, mas também capital organizado. Plano de negócio, capacidade de inserção institucional, fatores que não estão presentes na vida da maioria dos aposentados no Brasil, e nós precisamos estudar melhor essa situação. Não me parece que seja uma tendência. Eu acho que é alternativa para alguns segmentos bastante específicos”, detalhou.

Nova vida produtiva

Ainda assim, para quem consegue transformar uma habilidade em fonte de renda, o empreendedorismo pode representar mais do que dinheiro. Pode significar autonomia, identidade e a possibilidade de continuar participando da vida produtiva. A psicóloga Leny Louzada, mestre em ciências do envelhecimento e especialista em saúde emocional do idoso, faz uma distinção importante entre permanecer ativo por escolha e trabalhar por obrigação. “O trabalho pode fortalecer muito a autoestima quando representa escolha: ‘eu continuo trabalhando porque quero, porque gosto, porque me sinto capaz’”, pondera.

O problema aparece quando a atividade deixa de ser uma escolha. “Porém, quando existe uma obrigação financeira, pode aparecer uma sensação de aprisionamento”. Para a especialista, falar em envelhecimento ativo não significa necessariamente manter o idoso trabalhando. A questão central é garantir que ele possa decidir como participar da vida social e profissional. “Envelhecimento ativo não significa manter o idoso permanentemente trabalhando. Significa permitir que ele continue participando da vida de acordo com suas possibilidades, desejos e condições”, finaliza.

Fonte: O Tempo

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