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Quando é hora de parar de usar as canetas emagrecedoras? Veja o que diz consenso internacional

Documento publicado no The Lancet afirma que a decisão de interromper os medicamentos depende da evolução clínica de cada paciente

As chamadas canetas emagrecedoras transformaram o tratamento da obesidade nos últimos anos. Mas uma dúvida continua frequente entre pacientes: afinal, existe um tempo certo para interromper o uso desses medicamentos? A resposta começa a ganhar contornos mais claros em um consenso internacional publicado neste mês no periódico científico The Lancet Diabetes & Endocrinology. 

Elaborado pela Associação Europeia para o Estudo da Obesidade (EASO), pela Federação Europeia das Associações de Nutricionistas (EFAD) e pela Coalizão Europeia para Pessoas que Vivem com Obesidade (ECPO), o documento afirma que não há um prazo preestabelecido para suspender o tratamento. Mais do que estabelecer uma duração fixa, os especialistas defendem que a decisão deve considerar os benefícios alcançados, os possíveis efeitos adversos e as necessidades de cada paciente.

O consenso também propõe uma mudança importante na forma de encarar o tratamento da obesidade. Em vez de concentrar todos os esforços apenas na perda de peso, o documento recomenda que médicos e pacientes passem a observar outros indicadores, como preservação da massa muscular, qualidade da alimentação, saúde mental, capacidade funcional e qualidade de vida.

O debate ganha força em um momento de expansão acelerada das canetas emagrecedoras no Brasil. O avanço da semaglutida e da tirzepatida transformou o tratamento da obesidade em um dos segmentos que mais crescem na indústria farmacêutica. Levantamento da consultoria IQVIA, compilado pelo Itaú BBA, mostra que esse mercado movimentou R$ 14,6 bilhões no país no acumulado de 12 meses até abril de 2026, um crescimento de 110% em relação ao período anterior.

Obesidade exige tratamento contínuo

Na avaliação de Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a principal mensagem do consenso é que não existe uma “data de validade” para o tratamento.

“Para muitos pacientes, o tratamento pode ser mantido por vários anos e, eventualmente, por tempo indeterminado. Isso ocorre porque a obesidade é uma doença crônica, complexa e recidivante, e não uma condição que necessariamente desaparece quando a pessoa atinge determinado peso”, afirma.

Segundo o médico, a continuidade do medicamento depende de uma avaliação individualizada entre médico e paciente. São considerados fatores como manutenção da perda de peso, melhora das doenças associadas, qualidade de vida, preservação da massa muscular, além da tolerabilidade ao medicamento, custo e acesso ao tratamento. “O consenso reforça que as decisões de aumentar, manter, reduzir, pausar ou suspender devem considerar os riscos físicos e psicológicos tanto de tratar quanto de não tratar”, destaca.

O endocrinologista especialista em emagrecimento, Rafael Fantin, lembra que o próprio organismo tende a reagir contra o emagrecimento, ativando mecanismos que favorecem a recuperação do peso. “Existem estudos que mostram que, mesmo após cinco anos de emagrecimento, o corpo ainda mantém mecanismos de defesa, como a redução do gasto energético e o aumento dos hormônios que provocam fome”, explica.

Por isso, segundo Fantin, não existe uma duração padrão para todos os pacientes. “Esse tempo é individualizado. Quanto maior o peso e maior o tempo de obesidade, maiores costumam ser as adaptações do organismo, o que influencia diretamente na duração do tratamento.”

Nem todo efeito colateral deve ser encarado como normal

Embora náuseas, refluxo e desconfortos gastrointestinais sejam comuns nas primeiras semanas de tratamento, o consenso alerta que sintomas persistentes precisam ser investigados. O documento recomenda reduzir a dose, interromper temporariamente ou até suspender o medicamento quando os efeitos comprometem a alimentação, a hidratação ou o estado nutricional do paciente.

Para Alexandre Hohl, alguns sinais exigem atenção imediata. “Vômitos repetidos, incapacidade de manter hidratação ou alimentação adequada, diarreia persistente, sinais de desidratação, fraqueza importante, tontura e redução rápida e excessiva do peso são os principais sinais de alerta.”

O médico acrescenta que também merecem avaliação a queda importante de cabelo, perda de força muscular, dificuldade para realizar atividades do dia a dia e alterações importantes no comportamento alimentar.

Já Fantin observa que um dos maiores erros é acreditar que o tratamento deve provocar a menor ingestão possível de alimentos. “O objetivo não é comer a menor quantidade possível de calorias para perder peso rapidamente, mas sim retirar o desejo excessivo e a compulsão alimentar, fazendo com que a pessoa consiga sentir fome e saciedade de maneira equilibrada.”

Segundo o endocrinologista, quando a dose é excessiva, podem surgir efeitos como ingestão muito baixa de calorias, deficiência de vitaminas, intolerância gástrica, azia, vômitos persistentes, diarreia e cólicas.

Parar a medicação não significa encerrar o tratamento

Um dos pontos mais enfatizados pelo consenso é que o acompanhamento médico deve continuar mesmo depois da interrupção da medicação. A justificativa é que o organismo tende a recuperar parte do peso perdido após a suspensão do tratamento, tornando fundamental manter hábitos saudáveis e acompanhamento profissional.

“O principal desafio é a possibilidade de retorno do apetite, da fome e dos pensamentos recorrentes relacionados à comida. Isso não deve ser interpretado como falta de força de vontade. É uma resposta biológica esperada em uma doença crônica”, afirma Hohl.

Na avaliação do nutrólogo Lailson Ambrósio, esse costuma ser justamente o momento de maior vulnerabilidade emocional. ‘Quando o medicamento é retirado, os mecanismos biológicos que favorecem o ganho de peso continuam existindo. Consequentemente, a fome volta’, explica.” 

Conforme Ambrósio, o acompanhamento ajuda o paciente a ajustar alimentação e atividade física, preservar a massa muscular e identificar precocemente qualquer piora do peso ou das doenças associadas.

Por sua vez, o endocrinologista Rafael Fantin acrescenta que o medicamento, sozinho, não resolve a obesidade. “O tratamento não deve se iniciar com a medicação e, principalmente, não deve finalizar com a sua suspensão.” Para ele, mudanças permanentes na alimentação, atividade física, qualidade do sono, controle do estresse e manutenção da saúde muscular são fundamentais para reduzir o risco de efeito rebote.

Ainda faltam respostas

Embora o consenso reúna as melhores evidências disponíveis até o momento, os próprios autores reconhecem que ainda existem perguntas sem resposta sobre a retirada das canetas emagrecedoras.

Entre elas estão qual é a melhor estratégia para interromper o tratamento, se a dose deve ser reduzida gradualmente, se o intervalo entre aplicações pode ser ampliado e quais pacientes conseguem manter o peso sem medicação.

“Hoje sabemos que o reganho é comum, mas ainda não existe uma estratégia única que funcione para todos. Até termos evidências mais claras, a retirada precisa ser planejada, individualizada e acompanhada”, afirma Lailson Ambrósio.

Alexandre Hohl acrescenta que as próximas pesquisas também deverão esclarecer qual é a melhor forma de preservar massa muscular, reduzir o reganho de peso e definir em que momento vale a pena reiniciar o tratamento.

Fonte: O Tempo

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