As ligações falsas continuam sendo um desafio para os serviços de urgência e emergência em Minas Gerais. Somente em 2025, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) registrou cerca de 92 mil chamadas classificadas como trotes ou ligações indevidas em todo o estado. O número acendeu um novo alerta das autoridades de saúde, que reforçam a necessidade do uso responsável do serviço para evitar atrasos em atendimentos que podem ser decisivos para salvar vidas.
O tema voltou a ser destacado pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), que chamou a atenção para os impactos causados pelas chamadas falsas nas centrais de regulação. Segundo a pasta, cada ligação indevida ocupa linhas telefônicas, mobiliza profissionais e pode comprometer o atendimento de pessoas que realmente necessitam de socorro imediato.
A secretária de Estado Adjunta de Saúde, Poliana Cardoso Lopes, ressaltou que o problema vai muito além de uma simples brincadeira.
— O trote pode ser uma brincadeira para alguns, mas pode significar a vida de outros. O telefone do Samu que está ocupado com uma ligação dessas, deixa de atender uma pessoa que precisa de ajuda urgente naquele exato momento — afirmou.
Tempo
Responsável pelo atendimento rápido e especializado em situações de urgência e emergência, o Samu é uma das principais portas de entrada da rede pública de saúde para casos graves. Apenas em janeiro de 2026, o serviço recebeu mais de 184 mil ligações em Minas Gerais. Desse total, aproximadamente 5% foram classificadas como trotes.
Na Central de Regulação de Divinópolis, a auxiliar de regulação médica Jéssica Amaral explicou que cada chamada segue protocolos específicos para a coleta de informações essenciais ao atendimento, como identificação do solicitante, endereço da ocorrência, idade do paciente e pontos de referência para localização da equipe.
Segundo ela, mesmo quando uma ligação se mostra falsa, há um tempo necessário para que os atendentes identifiquem a situação.
— O tempo é vida. Enquanto um atendente identifica um trote ou trata de um assunto que não configura urgência, pode haver uma pessoa aguardando atendimento para uma situação grave. Até que a equipe perceba que a ligação é falsa, um tempo precioso já foi perdido — destacou.
O diretor clínico da Central de Regulação de Divinópolis, Marco Antônio Expedito, reforçou que as informações fornecidas durante o contato telefônico são fundamentais para a prestação do socorro. De acordo com ele, manter a calma e responder corretamente às perguntas feitas pela equipe contribui para que o atendimento seja direcionado adequadamente e para que os profissionais cheguem mais rapidamente ao local da ocorrência.
Situação na região
Apesar dos números expressivos registrados em Minas Gerais, a realidade da região Centro-Oeste apresenta um cenário diferente. Segundo a assessoria do CIS-URG Oeste, consórcio responsável pela gestão do Samu na região, a central possui atualmente o menor índice de trotes entre todos os serviços de atendimento móvel de urgência do estado.
Conscientização
Além de atender às ocorrências, o Samu também desenvolve ações educativas para reduzir o número de chamadas falsas. Em diferentes regiões do estado são promovidas palestras em escolas e treinamentos voltados para empresas, hospitais, clínicas, instituições religiosas e comunidades urbanas e rurais.
A estratégia busca conscientizar a população sobre os impactos causados pelos trotes e reforçar a importância da utilização correta do número 192, reservado exclusivamente para situações reais de urgência e emergência em saúde.
Medidas de combate
Como forma de enfrentar o problema, algumas regiões do estado já adotaram mecanismos específicos para identificar e reduzir a reincidência de chamadas falsas. Na macrorregião Centro-Sul foi implantado um sistema antitrote capaz de identificar números com histórico recorrente desse tipo de ocorrência.
De acordo com as informações divulgadas, quando um número ultrapassa o limite de 200 trotes registrados, as ligações passam a ser direcionadas para um atendimento automatizado. Caso a pessoa esteja diante de uma situação real de emergência, ela pode confirmar a necessidade de socorro e prosseguir normalmente com a chamada.
As medidas buscam preservar a disponibilidade das linhas telefônicas e garantir que os recursos do sistema sejam utilizados para atender ocorrências legítimas.
Possíveis punições
Além dos impactos operacionais e assistenciais, os trotes também podem gerar consequências legais. O Código Penal Brasileiro prevê punições para casos de interrupção ou perturbação de serviço telefônico de utilidade pública, com aplicação de multa e pena que pode chegar a três anos de detenção.
Em Minas Gerais, a Lei Estadual nº 22.452, de 2016, também estabelece multa para o acionamento indevido de serviços de emergência, incluindo o Samu, a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros Militar.
Diante desse cenário, a SES-MG reforça que o número 192 deve ser utilizado exclusivamente em situações reais de urgência.
Fonte: agora





